Siso: quando precisa extrair e quando pode ficar
Resposta curta: o siso precisa ser extraído quando causa ou vai causar problema — dor recorrente, infecção da gengiva ao redor, cárie nele ou no dente vizinho, cisto ou dano ao segundo molar. Um siso que nasceu totalmente, está alinhado e é possível higienizar pode ficar. Já o siso incluso ou semi-incluso sem sintomas é a zona cinzenta: a revisão Cochrane conclui que não há evidência suficiente para recomendar extrair todos preventivamente, mas também não para deixar todos — a decisão é caso a caso, com acompanhamento radiográfico.
Por que o siso dá tanto problema
Os terceiros molares são os últimos dentes a nascer, entre 17 e 25 anos, numa época em que o osso já está mais denso e frequentemente sem espaço na arcada. O resultado é o siso incluso (totalmente dentro do osso) ou semi-incluso (parcialmente coberto por gengiva), muitas vezes inclinado contra o dente da frente.
O semi-incluso é o mais problemático: a gengiva que o cobre parcialmente forma uma bolsa onde entra alimento e bactéria e a escova não alcança. Daí vem a pericoronarite — inflamação e infecção dessa gengiva, com dor, inchaço e dificuldade para abrir a boca — que tende a voltar.
Quando a extração é indicada
- Pericoronarite de repetição (dois ou mais episódios) — o problema é anatômico e não se resolve com antibiótico.
- Cárie no siso que não pode ser restaurada com qualidade pela posição, ou cárie na face do segundo molar voltada para o siso.
- Reabsorção da raiz do segundo molar pela pressão do siso inclinado, vista na radiografia.
- Cisto ou lesão associada ao folículo do siso incluso.
- Doença periodontal localizada atrás do segundo molar, causada pelo siso.
- Necessidade ortodôntica ou protética definida no planejamento.
- Dor recorrente sem outra causa identificável.
E o siso incluso que não incomoda?
Essa é a dúvida mais comum, e a resposta honesta é: depende. A revisão Cochrane de Ghaeminia e colaboradores (2020) analisou justamente a extração preventiva de sisos inclusos sem sintomas e sem doença. A conclusão foi que a evidência é insuficiente para afirmar que extrair todos é melhor do que manter e acompanhar — e vice-versa1. Ou seja, não existe regra universal de "tira tudo" nem de "deixa tudo".
Por outro lado, um estudo longitudinal de Nunn e colaboradores (2013), que acompanhou pacientes por décadas, encontrou que sisos retidos — especialmente os semi-inclusos com tecido mole — aumentaram o risco de problemas no segundo molar ao longo do tempo2. Isso pesa a favor de extrair quando o siso está em contato com o dente vizinho ou parcialmente exposto, mesmo sem sintomas hoje.
Na prática, a decisão leva em conta: posição do siso (radiografia panorâmica ou tomografia), relação com o nervo alveolar inferior e com o seio maxilar, idade do paciente (a cirurgia é mais simples e a recuperação mais rápida antes dos 25–30 anos, quando as raízes ainda não estão completas e o osso é menos denso), e se há doença começando. Quando a decisão é manter, o siso entra em acompanhamento radiográfico periódico.
Como é a cirurgia e a recuperação
A extração é feita com anestesia local, em consultório. Sisos já nascidos saem como qualquer extração. Sisos inclusos exigem uma pequena abertura na gengiva e, às vezes, remoção de um pouco de osso ou divisão do dente em partes para retirá-lo com menos trauma. A cirurgia leva de 20 a 60 minutos por dente.
Para o pós-operatório, a revisão Cochrane de Bailey e colaboradores (2013) comparou analgésicos e concluiu que o ibuprofeno é superior ao paracetamol para a dor após extração de siso, e que a combinação dos dois é ainda mais eficaz que cada um isolado3. Na prática, a prescrição costuma combinar anti-inflamatório e analgésico nos primeiros dias, além de orientações de gelo, repouso e alimentação.
O inchaço atinge o pico em 48 a 72 horas e regride ao longo da primeira semana. A abertura da boca pode ficar limitada por alguns dias. Os pontos são removidos em 7 a 10 dias. A maioria das pessoas volta a trabalhar em 2 a 3 dias.
Riscos que você deve conhecer
Toda cirurgia tem riscos, e o do siso inferior tem um específico: a proximidade com o nervo alveolar inferior, que dá sensibilidade ao lábio e queixo. Quando a raiz está muito próxima do nervo na radiografia, a tomografia define a relação exata e o planejamento muda (técnica diferente, ou até a opção de não extrair). Alteração de sensibilidade após a cirurgia é incomum e, quando ocorre, na grande maioria das vezes é temporária.
Outro risco é a alveolite — quando o coágulo se perde e o osso fica exposto, causando dor forte a partir do 3º dia. É mais comum em fumantes e em quem não segue as orientações de repouso. Tem tratamento simples no consultório.
Nada disso é motivo para adiar uma extração indicada: adiar costuma significar operar mais tarde, com raízes completas e osso mais denso — cirurgia mais difícil e recuperação mais longa.
Em resumo
- Siso que nasceu bem, alinhado e higienizável pode ficar.
- Extração é indicada com pericoronarite repetida, cárie, dano ao segundo molar, cisto ou dor recorrente.
- Para siso incluso sem sintomas, a Cochrane não sustenta extrair todos nem manter todos: decisão individual com acompanhamento.
- Sisos semi-inclusos em contato com o vizinho aumentam o risco de problema no segundo molar com o tempo.
- Ibuprofeno, sozinho ou com paracetamol, é o mais eficaz para a dor pós-operatória; recuperação típica de uma semana.
Referências
- Ghaeminia H, Nienhuijs ME, Toedtling V, et al. Surgical removal versus retention for the management of asymptomatic disease-free impacted wisdom teeth. Cochrane Database Syst Rev. 2020;5(5):CD003879. PubMed
- Nunn ME, Fish MD, Garcia RI, et al. Retained asymptomatic third molars and risk for second molar pathology. J Dent Res. 2013;92(12):1095-9. PubMed
- Bailey E, Worthington HV, van Wijk A, Yates JM, Coulthard P, Afzal Z. Ibuprofen and/or paracetamol (acetaminophen) for pain relief after surgical removal of lower wisdom teeth. Cochrane Database Syst Rev. 2013;2013(12):CD004624. PubMed
Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substitui a consulta com um cirurgião-dentista e não constitui promessa de resultado. Cada caso exige avaliação clínica individual.
